SOBRE POLICIAIS,
MILITÂNCIA E DIREITOS HUMANOS
No período de 15
a 18/12/2008 estive presente à 11ª Conferência Nacional dos Direitos Humanos,
em Brasília. Como uma das representantes da Polícia Rodoviária Federal,
compareci uniformizada durante os três primeiros dias, com o colega que me
acompanhava.
Na Conferência
foram discutidos vários temas, entre eles, “Segurança Pública, Direitos Humanos
e acesso à Justiça”. No evento, que contava com a participação de aproximadamente 600 pessoas, havia apenas seis outros policiais uniformizados, que eram militares
de São Paulo, do Distrito Federal e da Paraíba. Freqüentei as salas de debate, como
cidadã e policial militante de direitos humanos, desarmada e sem cinto de
guarnição. Como minha militância é
antiga, sei o quanto é importante trocar idéias, construir planos e realizar ações
em conjunto. Todavia,
não senti reciprocidade em minha tentativa. Observei olhares de desconfiança e
experimentei, em alguns momentos, a invisibilidade social. Notei que algumas
pessoas me ignoravam. Outras, não me viam como uma cidadã, como uma pessoa que,
tanto quanto as demais, desejava fortalecer a política de direitos humanos, mas
apenas como “alguém da polícia”. Assim também ocorreu nos momentos de
socialização: nos passeios pelo saguão de venda de livros e artesanatos e nas
longas filas para almoço e lanche. As pessoas foram educadas, mas pareciam muito
pouco à vontade ao lado “da policial”.
No último dia da
conferência decidi ir sem uniforme a fim de testar minha percepção. Usei um
vestido preto de malha, mangas três quartos e caimento amplo. Meias, sapatos
sem salto e uma bolsinha rosa artesanal atravessada no corpo. Logo ao chegar,
senti que as coisas seriam diferentes: o mesmo segurança que ontem negara à
policial o empréstimo de uma sombrinha, sob chuva torrencial, abriu-me a porta
com um sorriso.
Nas salas, os
olhares antes desconfiados eram, agora, atenciosos. Algumas pessoas que me
reconheceram cumprimentaram-me com sorrisos e um certo ar de surpresa. Nas
filas para o almoço e o lanche, não tive de ceder a minha vez quatro vezes,
como acontecera no dia anterior, para pessoas que simplesmente entraram na
minha frente, talvez como forma de teste ou provocação, valendo-se da multidão.
Não me senti invisível e nem um estorvo.
Mas as reações de distanciamento e mesmo
repulsa da sociedade à polícia não são novidade para mim. Já vivi estas
sensações em outros momentos e sei que se devem, em parte, a fatores
históricos, representados por momentos tristes em que a polícia usou o seu
poder de opressão contra a liberdade de pensamento.
Além disto, já
na caminhada democrática pós-Constituição de 1988, muitas vezes a polícia
protagonizou excessos contra cidadãos. E ainda hoje, alguns policiais insistem
em perpetrar prática violentas e anacrônicas, apesar dos esforços das
ouvidorias e das corregedorias. Tenho consciência de tudo isto e acredito que
alguns militantes presentes tenham sofrido esta opressão na própria pele.
O resultado da
herança histórica é um distanciamento entre a sociedade e a polícia, que
aparece mais forte exatamente nos dois meios: entre policiais e defensores de
direitos humanos ainda existe uma antipatia mútua, salvo algumas exceções.
Neste cenário, a
resolução da equação da segurança pública não é simples.
Em recente
pesquisa feita pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos, com 2019
entrevistados em todo o Brasil, 87% dos pesquisados defenderam a implementação
de iniciativas que tivessem por objetivo aproximar a polícia da sociedade. Ou
seja, esta é uma necessidade que vem sendo sentida pelas pessoas no seu
dia-a-dia. Promover esta aproximação, somar
esforços da polícia e da sociedade civil para encontrar soluções que, na área
de segurança pública, muitas vezes perpassam as próprias atribuições da
polícia, é o caminho certo a ser seguido. É preciso acabar com a distância,
senão inocente, cega, que não percebe que nas sociedades complexas e
democráticas a ação responsável e ética da polícia é uma das principais formas
de garantir o respeito aos Direitos Humanos.
É preciso ter em
mente que a sociedade em que vivem os movimentos sociais é a mesma em que vivem
os policiais. Não há “partes”: a paz e a vida com dignidade é o desejo de
todos. Somos vizinhos, amigos, parentes, pais e mães no choro pela dor da perda
dos entes queridos, vítimas da violência. Somos todos - negros, idosos,
crianças, policiais, gays, lésbicas e outros grupos vulneráveis - seres
humanos.
E no último dia,
vivi um momento emocionante, que mostra que todo o esforço de união é válido
pela realização de um objetivo maior: uma militante, vítima recente de
violência policial, conversou casualmente comigo, mas não me reconheceu sem
uniforme. Perguntou de onde eu era, ao que respondi: sou a policial que estava
ontem na sala de debates. Ela então abriu um sorriso, arregalou os olhos e me
deu um forte e silencioso abraço, após o qual disse: “continuem conosco nesta
luta, precisamos estar juntos!”
Tenho esperança
que a Conferência Nacional de Segurança Pública, a ser realizada em agosto de
2009, seja a oportunidade primeira de pôr em prática a aproximação necessária
entre a polícia, os policiais e a sociedade civil, sendo o primeiro passo de
uma longa caminhada de solidariedade e promoção dos Direitos Humanos.
28/12/2008
Marisa Dreys
Inspetora da
Polícia Rodoviária Federal – RJ
Mestranda em
Antropologia - UFF
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